Os falsos asiáticos no cinema

Dia desses, depois de 50 anos, revi na tevê a linda e elegantíssima Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany´s, 1961). Eu me lembro que todos os que viram o filme se apaixonaram perdidamentye pela Audrey Hepburn, uma precursora da revolução sexual que aconteceria poucos anos mais tarde. Ela é Holly Golightly, uma moça do interior, divorciada, independente, que gosta de festinhas e está de olho na grana de um rico fazendeiro brasileiro, feito por um ator espanhol. A música do filme, Moon River de Henry Mancini ganhou o Oscar de melhor música. É também, um bonito registro da cidade de Nova York. A Quinta Avenida, a Biblioteca Municipal, Central Park foram alguns locais escolhidos para o filme. Bonequinha de Luxo é também o exemplo do pior estereótipo racista produzido por Hollywood.

Mickey Rooney, faz um papel caricato e ofensivo, mesmo para aquela época, de um japonês, o senhor Yunioshi, vizinho da Holly, personagem totalmente descartável. Essa prática do cinema ocidental de utilizar atores cara pálidas para fazerem papéis de asiáticos com ajuda de maquiagem foi batizado de yellowface. Hollywood tem feito isso desde os tempos do cinema mudo. Os negros eram feitos por brancos, os chamados blackfaces. O mais famoso deles, provalmente é Al Jolson que fez o primeiro filme falado, o Jazz Singer. Hollywood abandonou o uso de blackfaces quando os negros se organizaram em defesa dos direitos civis.

Os Fu Manchus, os Charlie Chan e um grande número de asiáticos em filmes até os anos 60, foram feitos por atores brancos. A principal razão para isso é que a utilização de atores asiáticos desconhecidos seria um desastre em termos de bilheteria de acordo com os produtores.

Muita gente famosa foram peles amarelas em filmes. Marlon Brando, fez o papel do intérprete Sakini no filme A Casa de Chá do Luar de Agosto, Peter Lorre era o detetive Kentaro Moto, Katharine Hepburn, uma chinesa em A Estirpe do Dragão – Dragon Seed, baseado num livro de Pearl S. Buck, John Wayne foi um Gengis Khan grandalhão, Ricardo Montalban foi Nakamura-sam em Sayonara, Shirley Maclaine, se passa por uma japonesa em Minha Doce Gueixa, Alec Guiness foi Koichi Asano, um homem de negócios japonês em Do Outro Lado da Ponte – A Majority of One, David Carradine incorporou tanto o Caine, um mestiço chinês na série de tevê Kung Fu, que ele deve ter acreditado que era mesmo de descendência chinesa, e a lista vai embora…

Era de se esperar que hoje em dia a prática do yellowface fosse uma coisa do passado. Mas sabe de uma coisa? Você não deve subestimar a capacidade infinita do cinema americano de baixar o nível. Quer ver? Eddie Murphy fez um chinês em Norbit – Uma Comédia de Peso, Nicolas Cage é o Fu Manchu dessa geração, Keanu Reeves, vai ser um samurai em 47 Ronin, mas não sei se ele deveria ser mencionado aqui, pois afinal, ele é mestiço, filho de um hawaiano-chinês. Em pleno 2012 ainda vemos filmes ofensivos às minorias e não falo só da gente, os asiáticos.

Acabei de sair de um filme baseado num best-seller, o Cloud Atlas escrito pelo britânico David Mitchell. O filme se chama A Viagem no Brasil. Ele conta com atores como Tom Hanks, Susan Sarandon, Hale Berry, Jim Sturgess, Keith Davis, Doona Bae atuando em seis episódios que atravessam 500 anos, interconectados de uma forma ou outra. A fórmula de se utilizar os mesmos atores para fazerem papéis múltiplos deve-se, provavelmente, ao fato de que os personagens renascem em locais e grupos étnicos variados e até mesmo sexualmente diferentes. Virou uma festa de maquiagem e um jogo para saber quem é quem.

No segmento que se passa numa sociedade totalitária em Neo Seoul, Coréia do Sul de 2144, a principal protagonista é a linda atriz coreana Doona Bae, mas os personagens masculinos coreanos são feitos por atores brancos, por um negro – o ator Keith Davis – e até pela Hale Berry. O trabalho dos maquiadores foi péssimo quando se fez os brancos passarem por asiáticos. Pensei comigo que o personagem feito por Hugo Weaving (Matrix) deveria processar o seu cirurgião plástico por uma operação desastrosa por deixar o rosto naquele estado. Foi um pouco melhor quando os asiáticos e negros são transformados em brancos. Ou assim me pareceu.

Desde 1992 MANAA (Media Action Network for Asian Americans) tem se dedicado a combater o racismo e estereótipos da mídia retratando os asiáticos de forma ofensiva aqui nos Estados Unidos. A respeito do filme A Viagem – Cloud Atlas, o mais recente alvo da organização, a vice presidente Miriam Nakamura-Quan disse numa entrevista que é inconcebível que com o avanço das técnicas de maquiagem, ver trabalhos tão mal feitos em atores brancos para parecerem asiáticos, atrapalha totalmente o ritmo do filme. Os caracteres do passado como Fu Manchu e Charlie Chan parecem mais realísticos do que os personagens de A Viagem – Cloud Atlas. Porque não colocaram alguns atores asiáticos americanos ? Faria com que o filme fluísse normalmente, completou Nakamura-Quan.

Será tão difícil encontrar atores asiáticos hoje em dia? Existem aos montes! A exclusão é um problema a ser resolvido, mas o pior mesmo é o impacto social e cultural dessa nova geração de filmes, que através do uso do yellowface, continuam refletindo e perpetuando a visão distorcida e preconceituosa do poder que controla a indústria de entretenimento. Ainda somos vistos como um senhor Yunioshi do Bonequinha de Luxo. Há muito a ser feito nessa suposta era pós-racial para educar os americanos sobre sensitividade cultural e respeito a todas etnias.

Fotos de alguns dos famosos yellowfaces, Marlon Brando, tirado daquiMickey Rooney, daqui, Katharine Hepburn daqui e Jim Sturgess daqui.  

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